É importante notar que o "recorte" temático talvez atrapalhe um candidato menos atento. Afinal, mais do que falar sobre "falta de ética de políticos", tratava-se de discutir a perspectiva do indivíduo. Isso significa que as boas redações abordarão a banalização de comportamentos antiéticos, como parar o carro em fila dupla ou "colar" em uma prova de concurso.
Em relação à nossa preparação, vale ressaltar alguns pontos vistos ao longo deste ano:
• o conceito de ética como conjunto de princípios individuais, norteados pela consciência, segundo o valor do "bem";
• o "imperativo categórico" de Kant, simplificável no clichê "não fazer com o outro aquilo que não desejamos que o outro faça conosco".
• as explicações sobre a difusão de comportamentos antiéticos em nosso país: moralidade "flexível" (história do "jeitinho); falhas na educação moral (formal e informal); exemplaridade negativa dos líderes; ausência de punição para desvios éticos etc.
Em três oportunidades (sob protestos de alguns alunos, que não gostam de temas aparentemente repetidos), fizemos redações que envolviam a questão da ética. Em todas elas, a ideia era complexificar a ideia de que a "culpa" é dos outros - exatamente com o viés cobrado pelo ENEM.
E, para coroar essas referências, a aula da semana talvez tenha sido útil também. Afinal, na folhinha da aula, lemos estas duas introduções (pág. 4):
Não é muito difícil imaginar a seguinte cena: um motorista, parado por um guarda em uma blitz, resolve sugerir a não aplicação de uma multa de trânsito em troca de "amizade" e de uma "cervejinha". Diante dessa história, com sorriso pouco envergonhado no rosto, muitos trocariam o repúdio com que tratam os escândalos de Brasília pelo silêncio conivente. Nesse contexto, como imaginar um caminho para a corrupção vigente no país?
Ao “colar” em provas escolares, muitos jovens imaginam estar se comportando de maneira natural e aceitável. Na maioria das vezes, não têm vergonha de sua atitude e chegam a justificá-la, utilizando o raciocínio segundo o qual a matéria não será importante em sua vida profissional. Enquanto não se perceber que essa postura reflete um problema maior de distorção de valores, a corrupção continuará sendo a marca de nossa cultura.
Nessa mesma folha, a redação exemplar 3 (pág. 8) era sobre ética diante da cultura da corrupção.
Os textos da coletânea também se mostraram bastante úteis. Na charge de Millôr, a referência à raridade da honestidade; no fragmento de Lia Luft, um comentário sobre a diminuição da indignação das pessoas; no texto do psicanalista Contardo Calligaris, uma reflexão sobre a infecundidade da tentativa de sempre identificar a corrupção apenas no "outro."
Vale lembrar, ainda, que a prova pedia que o estudante apresentasse proposta de ação social. Considerando o recorte temático, seria interessante mencionar o papel conscientizador dos meios de comunicação e a função essencial da educação (tanto em casa como na escola) na construção de valores.
Entretanto, mais do que citar esses agentes, talvez fosse recomendável especificar de que forma essas soluções seriam implementadas. Campanhas como o "Ilegal, eu?", do jornal O Globo, são referências desse olhar sobre a necessidade de os indivíduos se enxergarem como parte do problema e, ao mesmo tempo, da solução. Outra ideia seria falar de projetos escolares de sensibilização para valores éticos.
Enfim, o desafio de fazer uma boa redação em pouco tempo talvez tenha sido menos complicado para o aluno do _A_Z. Assim esperamos! E que venha a UERJ!





